
Quando comecei a programar, sempre quis ter vários monitores. "Os verdadeiros programadores usam mais de um monitor", li em algum lugar. Demorou um pouco até eu ter dinheiro para comprar um segundo monitor. No começo, achei um espetáculo, mas em pouco tempo a sensação que eu tinha era a de que agora precisava de monitores maiores. Dois monitores de vinte e poucas polegadas já não bastavam. E foi assim que comprei monitores maiores.
O dobro de espaço, o dobro de janelas. Programar em uma tela e ter a documentação aberta em outra. Um sonho. Mas pouco tempo depois, li em algum lugar que os verdadeiros programadores amavam monitores ultrawide. Mais espaço para abrir janelas lado a lado: e-mail, Slack, Teams, terminal, editor, Spotify. Precisamos ver tudo e ver tudo ao mesmo tempo! Parecia a coisa certa a se fazer. E foi assim que troquei o monitor principal por um ultrawide.
Agora eu estava pronto para ser o desenvolvedor 10x. Espaço de sobra na tela, nada poderia me impedir. Exceto aquela pequena diferença de tonalidade entre os dois monitores, que era um pouco irritante. Na verdade, não era apenas isso que me irritava. Os monitores eram de modelos diferentes, então as bordas das telas eram diferentes. O braço articulado que segurava os monitores era desengonçado. Duas tomadas de energia e dois cabos HDMI. Essa falta de harmonia estava arruinando tudo e me impedindo de ser o dev que eu estava predestinado a ser. Era impossível brilhar assim. Vi em algum lugar que múltiplos monitores eram coisa do passado. Os verdadeiros programadores modernos usavam apenas uma tela. Uma grande TV OLED 4K de 42 polegadas pareceu a solução óbvia. Muito espaço para dividir a tela e esquecer que alt+tab existe, contraste infinito e código em alta definição. Era só isso que faltava. E foi assim que troquei os monitores por uma TV.
Tudo agora parecia no lugar. Instalei Arch Linux e Hyprland. Tudo aberto, de uma vez, em uma tela só. O paraíso final para um programador. O mito do desenvolvedor 10x estava prestes a virar realidade. Múltiplas janelas dançando dinâmicamente em uma tela enorme. No início, me senti invencível, mas em pouco tempo isso começou a me causar um pouco de ansiedade. Comecei a entender que ver tudo ao mesmo tempo, na verdade, me deixava mais improdutivo e ansioso. O problema nunca foi a quantidade ou tamanho das telas, mas sim acreditar na falsa sensação que tenho a capacidade de processar tanta informação de uma só vez.
Chega de múltiplas notificações e telas na minha frente. Quero uma coisa de cada vez. Abandonei o tiling dinâmico e agora uso apenas um programa em tela cheia por vez, cada um em seu workspace. Zed em um, Godot em outro, navegador em outro, e por aí vai. Sem falsa sensação de multitarefa, sem tudo no mesmo lugar ao mesmo tempo.
Não virei um desenvolvedor 10x assim, mas encontrei um pouco de paz.